Eu pretendia lhe dizer ontem, Príncipe, frases como “foi bom enquanto durou” e “eu queria poder te ligar de vez em quando”, mas achei tão torpe da minha parte, Príncipe, tão cruel eu me doer assim, e isso não fazer nenhum sentido a você. Então preferi me preservar, e preservar também um pouco dessa minha imagem, já tão enlameada e maldita, essa coisa de ter-um-pouco-de-orgulho-enquanto-ainda-resta-um-pouco-de-amor-próprio. E não te liguei. Embora eu tenha escrito aquelas bobagens de “precisamos ser felizes” e “eu te amei tanto”, sabe, aquelas coisas que a gente escreve quando está no fundo do poço e pede pelo amor de Deus que aquilo não tenha sido um fim, mas uma pausa.
Mas depois eu fiquei pensando que mesmo que você voltasse, Príncipe, já seria tempo perdido. Não seria legal da minha parte, entende, depois de tudo o que eu chorei no ombro dos meus amigos. Eu perderia um pouco mais da minha dignidade em troca de um pouco mais do teu amor, e mesmo que essa proposta me soasse assim tão irresistível, eu não poderia. Ah, Príncipe, você não faz ideia de como doeu. E por doer tanto eu não me movo e lhe sacudo, porque seria sensivelmente cruel você me dizer novamente que não sabe se vai ou se fica.
Tanta coisa nessa sua cabecinha, tanta dúvida. E você, com seus olhinhos de imensos cílios e pálpebras gigantes me dizendo pra eu ficar tranqüilo, que você era feliz comigo, quando na verdade felizes eram meus almoços e noites, quando eu te abraçava e brincava com o lóbulo da sua orelha. E você aí, não sabe se chora ou se ri.
Me lembro que eu lhe escrevi ainda alguma coisa sobre eu estar sufocando e isso ser um problema meu, e sobre eu ter sonhado com você. Ah, Príncipe, eu sabia no fundo, no fundo seria um grande aborrecimento, uma grande estupidez eu me apaixonar. O pior eu acho, talvez seja passar pelas ruas onde passávamos juntos, naquele infindável trajeto de almoço-sua-casa-e-trabalho, e saber que não há nada que não me faça lembrar de você, seja isso perfume, abraço ou barriga, pés, beijo ou livro de cabeceira.
Eu pretendia lhe dizer ontem, Príncipe, que espero que você seja feliz. E amado. Ontem sonhei com você. Espero não sonhar de novo. Mas você aí, não sabe se é alegria ou tristeza.


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