26 Setembro 2009

O tempo que me consome


Fez um esforço enorme em respirar. Saltou trepidante, arfando de modo descontrolado, o suor escorrendo pelas maçãs do rosto, sentindo-o salgado chegando à sua boca.
Aquilo parecia tão real, a água entrando pelas narinas, pela boca, lânguida e receosa de ser absorvida, audaciosa, escorrendo pela sua garganta, salgada, ardendo no pulmão. Seus olhos vermelhos, ácidos, alucinados, por um instante pousaram sobre o corpo que via em sua frente, e pensou que estava enlouquecendo.
Aquele par de olhos verdes, examinando-o por completo, nu, sentia-se invadido pelo brilho daquelas duas esmeraldas, pela água que esmagava seu corpo cada vez mais fundo, pra escuridão, pro absoluto. E não só olhos, mas um par de mãos acariciando-o, duas coxas espremendo-o, uma boca engolindo-o, saliva misturada com saliva, com sal, com sol, com céu.
Sentiu o gosto se transformar de salgado para adocicado, e de repente não estava mais beijando aquela boca, mas ainda sentia um estranho gosto de vida em seus lábios, um gosto molhado e consistente, pegajoso, escorrendo por entre seus dentes, sentindo-o no rosto, nos cabelos, nos pêlos, inteiro. Já não estava afundando naquele mar imenso, mas em sua cama, molhado de suor e de desejo, ofegando alto, desesperado, tenso, lívido.
Acordou sobressaltado; era um sonho.


2 pululado(s):

P. Florindo | 11 de outubro de 2009 16:53

Sem dúvida este foi o texto mais copélico* que você escreveu.

* De Copélia, personagem de "Toma Lá, Dá Cá".

Guilherme | 12 de outubro de 2009 20:25

Sem dúvida este foi o texto mais copélico que eu já publiquei.