Tenho inveja do teu pêlo
Inveja
Setembros
Ouve, ouve atento. Tá ouvindo?
Não.
É um sopro muito baixo, quase imperceptível. Tem que estar muito atento e, mais do que isso, o sopro tem que entrar também nos teus ouvidos, para que possas ouvi-lo.
E como faço pra que ele entre pelo meu ouvido?
Não é simples, mas talvez consigas: se mantiveres tua mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo, como naquela música.
Achei que fosse poema.
Agora estava pensando nisso de ouvir dentro de si. Tenho estado muito bem, sabe? Sentindo um contentamento grande, com as coisas e pessoas que têm passado na minha vida, e ficado.
Sei.
Hoje foi um dia bonito.
Fale-me dele.
Foi dia de acordar e dormir muitas vezes, naqueles sonos preguiçosos de quem dormiu mais do que deveria, mas não consegue levantar da cama. E doce, porque acordei rodeado de pessoas que amo, naquele quarto de tantas lembranças bonitas, de tanto carinho trocado. E trocamos pensamentos soltos e não muito claros, mas limpos. Quando resolvemos abrir a janela, o céu estava naquele tom pastel de filmes franceses noir, filmados com câmera boa e que parecem tão antigos. Foi o que ela me disse, e parecia mesmo. Fiquei um tempo grande abraçado nele e sentindo a claridade do céu bege-claro enquanto conversávamos os três. E quando decidimos que nosso estômago precisava de comida, caminhamos na chuva e trocamos livros e risadas, depois de comer.
Pensei numa coisa agora.
No que?
Sobre aquilo que dizias.
O que?
De ouvir aquele sopro. Sabe de onde vem?
Não.
De dentro pra fora. Aquela coisa de querer-bem, tão bem que chega a soprar.
Amor?
Não seria outra coisa.
Encontros com meu pai
Meu pai, por exemplo. É do tipo que lhe dá um tapão nas costas e comenta sobre futebol, mesmo tendo absoluta certeza de que você não gosta de futebol. Ou talvez ele fale de política, Movimento dos Sem Terra ou previdência social, e se você tiver a felicidade de comentar algum desses assuntos, ele será o seu melhor amigo e lhe convidará pra fazer churrasco.
Muito provavelmente ele lhe contará uma piada que você, certamente, não conhece. Mas vai ser uma piada tão sem graça, mas tão sem graça, que de não ter graça nenhuma, você vai rir, enquanto ele tem um ataque fulminante do coração de tanto rir, das suas risadas. É a pura felicidade de lhe proporcionar felicidade.
Ele também é do tipo de contar histórias exageradas que os amigos contam a ele, e que ele acredita a ponto de reproduzir com entusiasmo e detalhes. E quando eu chego de viagem, ele é o cara que me abraça e diz que sentiu saudade, e vai pra cozinha preparar uma batida de banana e Nescau, que é pra esconder as lágrimas.
Lembro quando disse que eu tinha dado o primeiro beijo em um homem. Ele riu a ponto de ficar vermelho e depois me abraçou com orgulho. Era importante pra ele ficar sabendo, mesmo que já soubesse.
Essa coisa de achar que sabe é muito a cara de meu pai. De repente você o encontra na rua e pergunta sobre seus filhos: ele lhe dirá exatamente o que cada um faz de sua vida e seus planos para o futuro, mesmo que esteja enganado. É que meu pai tem um jeito muito doce de não perguntar sobre nossas vidas, mas faz o possível pra ficar sabendo. Surpreendo-me com a gama de informações que ele possui, só de ouvir minhas conversas. E não pense que ele ouve atrás da porta. Meu pai só ouve o que lhe é permito, e se contenta em saber o que você quer dizer naquele momento. No seu espaço, ele sabe até que ponto pode – e deve – entrar nos espaços dos outros, e não se ressente de descobrir que não sabia de tudo. Ele dirá alguma coisa como “é mesmo, eu estava enganado”, mesmo não tendo a obrigação de saber o certo. Porque meu pai é muito cavalheiro e elegante pra fazer justiça.
Também tem um jeito que só ele sabe fazer com os olhos, com o nariz, com o modo como coça a barriga depois que acorda, com bater os chinelos e fazer um barulho ininterrupto enquanto caminha. E só ele sabe guardar todos os brinquedos que estão sobre a casa quando sua neta o visita, só ele sabe como degustar o que sobra nos pratos da sua prole que já está satisfeita, um jeito que só ele sabe de misturar feijão com pimenta e ficar bom. É porque meu pai também aprendeu com o tempo a ser pai, e não contar a ninguém o segredo.
E se às vezes eu acho o silêncio do meu pai muito grande, olho pra ele e pergunto como foi o seu dia e o que ele almoçou. Então ele me conta a velha piada que ele aprendeu com os colegas de trabalho, e antes de dormir pergunta que horas eu vou acordar no dia seguinte. Que é para estar pronto com café-da-manhã e perguntar se eu o quero antes ou depois do banho.
É no silêncio que encontro meu pai. Na plenitude.
Sóis
Então vim no ônibus pensando que se você tivesse ligado ou aparecido de carro na esquina da parada, eu teria voltado no sentido contrário e te abraçado com tanta saudade e bem-querer, que suas bochechas rosadas teriam se enchido dos meus beijinhos sem fim. E eu teria lhe dito eu-te-amo-tanto-eu-te-amo-tanto-eu-te-amo-tanto com tanta força, com medo de, quem sabe, ser a última vez que eu dissesse. Mas não foi a última vez, e é isso que importa agora.
Fantasiei então que você estaria em casa se perguntando por que eu saí. E, sufocando a angústia do orgulho não permissivo, lhe escrevi aquele “eu te amo tanto”, meio que por súbita-inesperada-atitude-intempestiva, e me senti melhor depois que recebi sua resposta de “eu também”.
Então tudo pareceu não passar de mal entendido e o céu tornou-se rósea de novo. Como num sonho. E você talvez me pergunte depois o motivo pra eu agir assim. E eu lhe responda: eu estava absolutamente orgulhoso naquele momento pra aceitar a minha solidão. E não me dei conta.

Certas coisas
Tentando me encontrar, sem rima, sem poesia. Sem aquela preocupação de não usar frases de efeito ou matar a vida a procura de histórias, sem justificativa, sem sentido nenhum.
Preciso de paz. Preciso esquecer. Seguir em frente, ficar mais perto de quem eu amo, dizer o que sinto, amor maior.
Cada voz que canta o amor não diz tudo o que quer dizer. Tudo que cala, fala mais alto ao coração.
É bom saber que o coração grita, mesmo quando o silêncio não diz nada à escuta. E se sentir protegido, e defendido, e sentir a doçura do carinho nessa proteção. Ele é meu irmão, é minha gente.
Bateu fundo. Me fez pensar que eu preciso de paz. Quero me encontrar.
Também te amo. Calado, como quem ouve uma sinfonia.



